20170315EscSecMonteCaparica rtpA Junta da União das Freguesias de Caparica e Trafaria decidiu tomar posição publicamente, solidarizando-se com a luta dos estudantes da Escola Secundária do Monte de Caparica pela rápida conclusão das obras que duraram três meses e estão interrompidas há mais de seis anos.
¤ 15-mar-2017

 

A Junta da União das Freguesias de Caparica e Trafaria, reunida hoje, tomou conhecimento das iniciativas desenvolvidas pela Associação de Estudantes da Escola Secundária do Monte de Caparica, no sentido de exigir a rápida conclusão das obras naquele estabelecimento de ensino e a criação de condições dignas de funcionamento.

Estas reivindicações são, no essencial, as mesmas que têm sido também assumidas pelos órgãos autárquicos da freguesia, em tomadas de posição que têm vindo a ser aprovadas ao longo do tempo. Merecem todo o apoio e solidariedade deste órgão.

Foi também enviada pela diretora da escola uma carta aos vários órgãos de tutela e soberania, a qual merece a total concordância desta Junta.

Para conhecimento de todos os fregueses e demais interessados, publicamos o texto deste documento, bem como fotografias reveladoras do estado atual da escola.

 

Uma onda de contestação ímpar
vai grassando por toda a escola...

«A Escola Secundária do Monte de Caparica é a sede do Agrupamento de Escolas de Caparica. Escolhida para uma intervenção alargada pela Parque Escolar E. P., a escola sede viu as obras iniciadas em outubro de  2010 serem interrompidas em janeiro de 2011 – isto é, há cerca de 75 meses.

Dessa decisão – que não nos cabe discutir, mas que lamentamos – resulta um quotidiano escolar vivido em condições no limiar da dignidade, no interior de contentores cujas janelas são gradeadas, onde há excesso de frio ou de calor, nos quais entra água cada vez que chove, em que as ocorrências das “salas” ao lado interferem no curso normal de cada aula, onde os alunos se acotovelam em virtude de regras de formação de turmas que não atendem às circunstâncias locais, nos quais as instalações sanitárias são degradantes, em que o parque informático não é renovado por aguardar o termo da intervenção de fundo, não existindo inclusivamente um espaço polivalente coberto entre muitas outras disfunções incompatíveis com a almejada excelência dos serviços prestados, que seria fastidioso enumerar. Em resumo, vive-se num ambiente feio, inapropriado e pouco motivador.

Esta instituição, um Território Educativo de Intervenção Prioritária TEIP, serve cerca de 2120 alunos, dos quais 43% - quase metade - beneficia de apoio no âmbito da Ação Social Escolar. Muitos outros são apoiados no âmbito de ações de intervenção social apadrinhadas pelo agrupamento. Esta percentagem reflete a amplitude do serviço prestado, que tem uma forte componente social a par com a componente educativa central. Reflete igualmente o perfil socioeconómico extremamente carenciado da população que servimos. Ora, cabe sublinhar que é apanágio de populações muito carenciadas a sua enorme desconfiança em relação às instituições. Nesta linha, a atitude inicial de muitos dos nossos alunos reflete uma enorme desesperança em relação à diferença que a Escola pode fazer nas suas vidas. Provindos de bairros degradados que circundam a Secundária, sabem que encontrarão aqui um acolhimento humano fora de série – e que a recente avaliação externa ao agrupamento reconheceu e enalteceu –, mas que não é secundado pelas instalações nas quais habitarão, em regra, oito horas por dia. Estas instalações precárias não acrescentam valor e não fazem a diferença. Pelo contrário, prolongam aquilo que são e o que têm.

Acresce que as promessas de que as obras seriam concluídas – consubstanciadas na aprovação de verbas para este fim no Diário da República, nos ofícios que vão chegando à escola pejados de prazos abstratos ou de declarações de intenções, ou nas poucas informações prestadas à comunidade escolar – nunca foram cumpridas. Há quase uma década que os alunos entram e saem da Escola Secundária do Monte de Caparica sem conhecer a normalidade de uma sala sem frio ou a alegria de ter um espaço para atividades como a música, a dança ou o teatro, que tanta falta fazem a esta comunidade. São muitas as dezenas de alunos com necessidades educativas especiais que servimos, mas a diferenciação que a sua condição exige é pouco compatível com a exiguidade dos espaços, com a carência de equipamentos adequados, com a atmosfera difícil que se respira num contentor. São também dezenas os alunos estrangeiros que servimos, muitos deles buscando em Portugal o que os seus países de origem não conseguem providenciar. Mas também aqui não encontram em pleno a diferença que uma escola europeia poderia fazer.

Temos aguda consciência de que as escolas não se fazem de paredes. Fazem-se de preparação, de competência, de projetos e de pessoas mobilizadas para os concretizar. Porém, mesmo quando a massa humana está motivada para levar por diante os melhores projetos, esbarra invariavelmente nas paupérrimas condições de trabalho e nas carências de toda a ordem, que mais identificam a escola com um estabelecimento de terceiro mundo. Se motivar e mobilizar alunos, funcionários, professores e pais é difícil per se, tal transforma-se numa tarefa ciclópica nas condições referidas. Com a maior sinceridade lhe digo que me encontro numa situação desesperada face ao desencanto desta comunidade com o abandono a que a tutela condenou a Escola Secundária do Monte de Caparica.

Perguntam-me as assistentes operacionais, os guardas, as assistentes técnicas que connosco laboram – cuja média etária é elevada e cujo estado de saúde é genericamente debilitado – para quando podem esperar instalações de apoio condignas, saudáveis e facilitadoras da sua dura missão; todos sabem que é mais provável alcançarem a sua reforma do que verem o seu local de trabalho dignificado.

Perguntam-me pais e encarregados de educação quando terão os seus filhos direito a condições dignas de estudo e quando terminará esta objetiva discriminação negativa dos seus educandos; porém, já deixaram de escutar as minhas respostas, baseadas na informação que recebo, por já nelas não acreditarem.

Perguntam-me os alunos se as obras não são concluídas sentindo-se discriminados  quando eles próprios  observam que outras escolas, porventura melhor enquadradas socioeconomicamente e porventura com outros meios de acesso à decisão tutelar, veem satisfeito o seu desiderato num espaço de tempo que aqui não conhecemos.

Perguntamo-nos todos qual é o significado da expressão «Território Educativo de Intervenção Prioritária» num território que há quase uma década não é, obviamente, prioridade para ninguém. Paradoxalmente, onde já estão gastos cerca de 1 250 000 euros em aluguer de contentores.

Dirijo-me nestes termos a Vossa Excelência por sentir como nunca que esta comunidade escolar perdeu toda a espécie de fé de que o problema seja resolvido sem o recurso a tomadas de posição muito fortes. Qual estado de espírito de Sísifo – a figura mítica que empurrava uma pesada pedra até ao cimo da montanha, para sucessivamente a ver rolar de volta até ao sopé, reiniciando aquele processo sem fim – está neste agrupamento esgotado o alento. Quando são incompreendidas as razões técnico-jurídicas dos adiamentos e findada a crença em promessas sempre adiadas, tudo o que aqui ficou foi um sentimento de tremenda discriminação, de profunda injustiça, de amarga desesperança. Sabemos que estas são chão fértil para atitudes que ninguém deseja, muito menos esta equipa diretiva. Porém, é sem artifício retórico e com a maior das lealdades que lhe transmito a minha incapacidade, até moral, de suster uma onda de contestação ímpar que vai grassando por toda a escola, envolvendo pais, alunos, funcionários e professores, e cujo desfecho terá, inevitavelmente, um forte eco mediático, a não ser que seja atalhada com ações concretas, imediatas e visíveis.»

Texto do ofício enviado ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, ao Presidente da Assembleia da República, aos grupos parlamentares e ao ministro da Educação, no dia 3 de fevereiro, por Isabel Santos, diretora da Escola Secundária do Monte de Caparica.

Estas fotos foram enviadas em anexo.