20200909CovaVapor centenario kA Associação Margem de Coragem! Biblioteca do Vapor publicou um folheto, que aqui divulgamos, intitulado «Cova do Vapor - Um Lugar Centenário», editado no quadro de um projeto de valorização da história e das estórias do lugar.
¤ 10-set-2020

 

 

 

 

 

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ONDE COMEÇA UM LUGAR?
História da Cova do Vapor: o nome e o lugar

Várias são as teorias à volta do nome: uma delas é que o nome de "Cova" provém do facto de ser uma pequena concha formada no areal a favor das contracorrentes de maré que se produzem na proximidade do Tejo no final das vazantes. Quanto ao "Vapor" é possível que se refira a uma draga a vapor que aí retirou areais para a construção de docas e cais em Lisboa, mas anteriores a 1920 e às construções dos anos 40, dado que "a Cova de Vapor já era assim chamada antes de 1920" - in «Almada Toponímia e História», Raúl H. Pereira de Sousa, CM Almada, 2003, pág. 128.
Outra teoria consta do livro «Costa de Caparica no Areal do Tempo» (Mário Silva Neves, 2008, pág. 230): "Nesta margem ribeirinha existia há longos anos uma pequena enseada que mais tarde, devido à subtração de areias causada pela draga, ficou muito profunda e deu origem ao nome da Cova do Vapor".

 

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Quando surgiu a Cova do Vapor,
quando começa a ocupação e vivência deste lugar único?

Não há dúvida de que a ocupação da Cova do Vapor se liga ao desenvolvimento das práticas de lazer do início do Século XX. Terão sido estas as razões para uma ocupação e um uso do lugar que até aí terá sido apenas conhecido e valorizado pelos pescadores.
Os primeiros registos históricos com datas precisas são de duas ordens:
- por um lado as autorizações para ocupação de terreno ou construção de casas de madeira: quer as licenças emitidas já em 1934 pelo Quartel General do Governo Militar de Lisboa, "para construir uma barraca de madeira desmontável"; e outras pela Administração Geral do Porto de Lisboa "pelo arrendamento de uma parcela de terreno situado na praia da Cova do Vapôr".
- por outro, os transportes fluviais de Lisboa para a Cova do Vapor - existem registos oficiais de 1932 que referem a construção da "ponte", o cais de atracação dos barcos, pela companhia «Parceria dos Vapores Lisbonenses».
A jornalista Beatriz Ferreira aponta em 1948 que a Cova do Vapor terá começado a ser conhecida nos anos 20 e tornou-se uma "praia popular da margem Sul "devido à iniciativa da Parceria".
Mas falamos de lugar centenário porquê? Já antes do Séc. XX há a certeza da ocupação fixa e/ou temporária deste lugar por pescadores (Outrafaria, Carlos Barradas Leal, página 17): havia atividade de pescadores oriundos de Ílhavo e de várias localidades do Algarve cujo primeiro domicílio foi a Trafaria, como refere Mário Silva Neves - e também pescavam na zona que corresponde hoje à Praia de São João e à Cova do Vapor.

 

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Uma praia muito especial

Este lugar ganhou desde 1933 transportes fluviais para os novos hábitos balneares dos Lisboetas, que aproveitavam a excelente praia de rio e de mar. Ganhou intensa vida social, bailes, espetáculos, convívios, cafés, restaurantes, aluguer de quartos, banheiros, posto de primeiros socorros, estação de correios...
A Cova do Vapor conheceu grande sucesso, alguma liberdade de costumes nos novos tempos de lazer, muitas histórias de amor e personagens morenas retratadas, por exemplo, pela repórter Beatriz Ferreira que aqui tinha casa...
"As dragagens efetuadas entre os anos 40 e 50 do século XX, para extração de areia para construção, foram a causa determinante da diminuição do areal e eliminou ( ... ) dunas já estabilizadas por vegetação espontânea (RH Pereira de Sousa, Almada Toponímia e História, páginas 128 e 129)."
Começa aqui, no final de década de 50 e início de 60, a mudança dos três pontos que marcam a história deste lugar: como consequência do avanço do mar a Cova do Vapor recuou uns impressionantes 1700 metros e as pontas mais avançadas do seu areal - a Coroa de Fora e o Bico da Areia - desapareceram.
O terceiro marco, a Torre do Bugio, continua a ser referência mas fica atualmente a "3600 metros de distância" (in Roteiro das Barras de Lisboa e do rio Tejo até Vaiada - Joaquim António Martins, pág. 126) - os mais antigos ainda recordam irem a pé 'quase até ao Bugio'. Durante as tempestades e inundações de 1958 e 1962, atos de heroísmo e momentos de aflição foram vividos pelas pessoas com casas em perigo.
Com a ajuda de juntas de bois a maioria das barracas de madeira do "Lisboa-Praia" (parte Atlântica da Cova do Vapor) foram postas a salvo - como as que podem ser vistas na Praia da Saúde - e começaram a transformar-se em casas fixas. Depois da destruição da ponte/cais de atracação dos barcos, as carreiras terminaram...

 

A Cova do Vapor hoje

É bom lembrar este percurso agora, quando o recuo do areal desde meados dos século XX, a destruição das dunas autóctones, a ocupação urbanística - são factores e ameaças comuns a toda esta zona costeira.
Hoje, falamos que a maior ameaça à Cova do Vapor são as chamadas alterações climáticas, com a prevista subida do nível do mar com o aquecimento global do planeta. Falámos brevemente de outras ameaças e também de outros sonhos que têm moldado a Cova do Vapor até hoje.
Torna-se imprescindível a participação das pessoas, moradores, veraneantes, todos os que a estimam e se envolvem na sua preservação.
Algumas das ideias que recolhemos e sintetizamos: A sobrevivência da Cova do Vapor passa ontem como hoje por construções protetoras, sensibilização ambiental e proteção costeira de regeneração dunar, que podem garantir o futuro desta costa; A valorização deste lugar para todos vivermos melhor passa por nutrir o espírito de comunidade e a participação de todas e de todos; Desenvolver ação persistente e fundamentada junto das entidades que podem apoiar a resolução dos problemas da comunidade (CM Almada, Junta de Freguesia da Trafaria, APL, Agência Portuguesa de Ambiente, entre outras); Realizar iniciativas de desporto, cultura e apoio social para crianças, jovens e idosos - bem como de segurança e prevenção para todos; Lutar pela construção do Porto de Abrigo e angariar outros apoios que contribuam paro a comunidade, a melhoria habitacional e o espaço público.
Para que possamos preservar este encantamento de quem visita a Cova do Vapor pela primeira vez - a Associação Margem de Coragem! Biblioteca do Vapor vai continuar a contribuir com este projeto de valorização da história e das estórias do lugar.

 

COVA DO VAPOR
Um lugar centenário

Não há dúvida de que a ocupação da Cova do Vapor se liga ao desenvolvimento das práticas de lazer do início do século XX - muito ligado aos ideais Republicanos e à valorização dos benefícios das práticas termais e balneares para a saúde. Terão sido estas as razões para uma ocupação e um uso do lugar que até aí terá sido apenas conhecida e valorizado pelos pescadores.

20200909CovaVapor centenario foto 6(Chegada de passageiros dos barcos da Carreira Lisboa-Cova do Vapor, 1942 - coleção particular de Vítor Azevedo)

 

Cova do Vapor, Meu Amor, Sempre!
Associação Margem de Coragem / Biblioteca do Vapor

 

 

 

 

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